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Aconteceu!
Em plena luz do dia, num horário de grande movimento da Avenida Arouca, a avenida onde se localiza a maioria dos bancos comerciais com sede em Passos, ele apareceu e me chamou pelo nome. Não me assustei. Sua aparência era normal. Não usava nenhum lençol sobre a cabeça.
Quando cheguei perto, atendendo ao seu chamado, ele me disse: “ce anda escrevendo demais no seu jornal”. Quis saber sobre o que exatamente. Gilberto Donezzetti Ribeiro disse que era sobre aquele negócio de funcionário fantasma. “Eu não sou fantasma não, viu?”, disse.
Em seguida confirmou que trabalhava para o deputado estadual André Quintão. “Sou assessor regional do deputado”, disse. Quis saber dele se trabalhava também na FESP. “Trabalho à noite. E isto não quer dizer nada, porque a FESP é particular e, então não acumulo dois empregos públicos”, apressou-se em dizer como justificativa para a frase que diria em seguida. “Posso até arranjar mais empregos, se quiser”, defendeu-se.
Perguntei em que cidade funcionava o escritório do deputado Ande Quintão. “Não tem. Não há dinheiro para isso”, disse, esquecendo-se de dizer que para pagar funcionário que nem precisam ir ao gabinete e nem a um escritório para justificar-se quanto a que trabalham estão fazendo, o dinheiro existe.
Para Gilberto a função é debater os problemas da comunidade. O que vimos por aqui não são idéias, mas atos públicos de afirmação de ser contra pelo fato de ser contra. “Não vou dizer que não haja política, é claro que há, o ano que vem tem eleição”, lembrou para em seguida remendar que “tenho falado com o Auro (outro fantasma, mas só que camarada) que a gente ficar só na denúncia não, senão a gente vira demagogo, precisamos apresentar propostas também”, disse.
De repente o pedido. “Faz lá o teu jornal, deixa a gente trabalhar quietinho. É importante a cidade ter outro jornal, só a Folha não é bom, porque ela pode monopolizar as informações”, disse.
Então ‘tá.
O que Gilberto não explicou é como ele consegue ser assessor regional de um deputado, sem necessidade de ir ao gabinete, e ainda trabalhar à noite em uma instituição onde até bem pouco tempo era presidente de curso de Serviço Social. Faltou também a informação sobre quanto ganha um desses assessores que nem comparecer ao local de trabalho precisam, porque, talvez, quando perguntado, possa dizer que esta por aí, num lugar qualquer da região, “assessorando o deputado”.
É bem diferente o jeito de assustar dos fantasmas de hoje. Antigamente eles colocavam um lençol sobre a cabeça,à noite, na solidão da escuridão davam berros apavorantes, daqueles que gelavam a espinha. Hoje, moderninhos, embolsam o dinheiro público, a título de soldo, saem pelas ruas, faixas em punho, reclamando que não há dinheiro para o remédio, para pavimentação e fingem não darem conta que alguma parte está no próprio bolso dessa gente.
Não são abnegados na defesa do interesse público, ao contrário, são oportunistas pagos com o dinheiro da própria população. Abnegados são aqueles representantes da associação de moradores, líderes em seus bairros, que sabem pedir, mas que não toleram a demagogia de quem quer se passar por detentor do saber do conceito de cidadania, travestidos em pregadores e que nada mais fazem do que “ganhar o seu” em cima de uma ação politiqueira tão somente.
Onde estão eles na defesa de uma universidade pública, por exemplo?
Bem que o Gilberto podia convidar o seu amigo Auro e irem fazer manifestação em frente a FESP para que conseguíssemos ter uma aqui uma universidade federal ou estadual. Mas será, Gilberto, que trabalhando na instituição você conseguiria?
Milhares de estudantes que não têm a sorte de ter um padrinho deputado gostariam de ver seu engajamento – e de seus companheiros – nesta causa. Sejam camaradas ou não.